“Assim que se olharam, amaram-se; assim que se amaram, suspiraram; assim que suspiraram, perguntaram-se um ao outro o motivo; assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio”.
William Shakespeare
Só bons amigos! Perdi a conta de quantas vezes essa frase se repetiu aos meus ouvidos. Na verdade era medo, medo de perderem-se um ao outro. Repetir aquela frase era uma tentativa de transforma-la em realidade para fugir de um sentimento novo e estranho que os invadia. Mas era uma luta perdida, aquele sentimento já tinha criado raízes nos seus corações. A cada sorriso que ela dava quando ele chegava, e a cada vez que ele repetia o nome dela com um brilho no olhar mais difícil ficava de esconder do outro o que cada um sentia.
Os olhares voltavam-se todos para eles na expectativa de que rompessem a barreira da insegurança, de que quebrassem as correntes do receio, da dúvida, de que realizassem o próximo movimento desse jogo. Era uma aposta alta e apenas duas cartas na mão, apenas dois caminhos a seguir, bastava uma escolha. Mas amar é um jogo com advertências e eles perderam-se em ponderações.
Cada dúvida, cada medo, cada palavra que soltavam era uma certeza. Certeza de que não podiam viver longe um do outro. Mas era loucura apostar nesse azarão – pensavam eles – os números eram contra qualquer possibilidade de vitória e corriam pelas línguas o gosto humano pela dor alheia. Sim era loucura! Era uma ideia descabida, um ato perigoso, um caminho sem volta... Mas o que importava isso? Já dizia o poeta que “tudo vale apena, se a alma não é pequena”.
Grande, era o desejo que lhes consumia desde as pontas dos cabelos até o dedo mindinho do pé. Por mais forte e cruel que fosse o medo da entrega, ele não pôde sustentar os seus argumentos por muito tempo. Afinal aquilo tudo era uma loucura. Celebraram-na despindo-se do seu passado e a ele voltando, mas sem as memórias pelo caminho. Tudo era novo. Do toque, magnetizado, das mãos ao toque, elétrico, dos lábios, tudo era uma novidade.
Sentado no canto da sala, observo o sussurro ao pé do ouvido. O sorriso vem como resposta às improbabilidades da vida. Quanto tempo vai durar? Quem sabe?! Talvez dure eternamente, e se alguém disser que não passa de amanhã, que seja. Aprendemos na vida que o eterno às vezes dura apenas um segundo.