Xavier Cardoso
segunda-feira, 21 de março de 2016
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
50 segundos
Seus olhos estavam em mim e de alguma forma nada mais tinha importância. Ela estava ali, com os lábios rosados curvando-se em um doce sorriso – desejei aqueles lábios, desejei senti-los, abrasadores, contra os meus, desvendar-lhes o sabor... Duas metades de um pomo cor-de-rosa. Quem toca-lo será eterno. – Estávamos com um espaço mínimo entre nós. Sua pele contra a minha, suas mãos no meu pescoço, rostos colados e o mundo havia desaparecido, ela era o meu mundo. Estávamos sós. Minhas mãos trêmulas em sua cintura, a respiração ofegante, estava em febre...
Suas mãos se moveram eriçando minha nuca, senti seu rosto também movendo-se, colado ao meu. Sua pele, tão alva, tão cândida, era tão suave ao toque, – pensei subitamente em friccionar meu rosto naquela pele, assim como um gato que busca carinho. – fechei os olhos: Sou seu, as palavras dissolveram-se na ponta da língua e ficaram pairando no pensamento. Ela puxou-me pressionando seu corpo contra o meu destruindo qualquer partícula de ar que ainda poderia existir entre nós. Meus olhos se abriram, eu estava com um misto de surpresa, medo e extasse. – Quis retribuir o abraço com a intensidade de meus desejos, mas temi assusta-la. Contive, forçadamente, o impulso e apenas encaixei meu queixo na curva de seu pescoço, pude aspirar o seu cheiro. – Senti o seu peito subir e descer sobre o meu, e dentro deste último o coração soltava o freio.
A minha voz perdeu-se, mas a dela saiu em notas suaves bem ao pé do ouvido. – Quieto meu coração, repreendi mentalmente. Temia que ele revelasse um segredo que eu queria contar, tão estranho, pensei. Iria contar...
Em um sussurro ela soprou ao meu ouvido uma única palavra, – sua respiração era quente. – um momento tão doce e tão amargo. Voltei a perceber o mundo ao meu redor, tão cinza. Depois do obrigado ela desceu seus lábios até o meio do meu rosto. Ao estalo do beijo meu peito comportou-se, meu coração já estava com as mãos no freio. Olhou-me carinhosamente nos olhos e partiu. Fiquei sozinho com o peito angustiado. Tantas palavras que não consegui soltar, tanta coisa que senti e ela nem imagina.
domingo, 6 de dezembro de 2015
Relatório do Cupido
“Assim que se olharam, amaram-se; assim que se amaram, suspiraram; assim que suspiraram, perguntaram-se um ao outro o motivo; assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio”.
William Shakespeare
Só bons amigos! Perdi a conta de quantas vezes essa frase se repetiu aos meus ouvidos. Na verdade era medo, medo de perderem-se um ao outro. Repetir aquela frase era uma tentativa de transforma-la em realidade para fugir de um sentimento novo e estranho que os invadia. Mas era uma luta perdida, aquele sentimento já tinha criado raízes nos seus corações. A cada sorriso que ela dava quando ele chegava, e a cada vez que ele repetia o nome dela com um brilho no olhar mais difícil ficava de esconder do outro o que cada um sentia.
Os olhares voltavam-se todos para eles na expectativa de que rompessem a barreira da insegurança, de que quebrassem as correntes do receio, da dúvida, de que realizassem o próximo movimento desse jogo. Era uma aposta alta e apenas duas cartas na mão, apenas dois caminhos a seguir, bastava uma escolha. Mas amar é um jogo com advertências e eles perderam-se em ponderações.
Cada dúvida, cada medo, cada palavra que soltavam era uma certeza. Certeza de que não podiam viver longe um do outro. Mas era loucura apostar nesse azarão – pensavam eles – os números eram contra qualquer possibilidade de vitória e corriam pelas línguas o gosto humano pela dor alheia. Sim era loucura! Era uma ideia descabida, um ato perigoso, um caminho sem volta... Mas o que importava isso? Já dizia o poeta que “tudo vale apena, se a alma não é pequena”.
Grande, era o desejo que lhes consumia desde as pontas dos cabelos até o dedo mindinho do pé. Por mais forte e cruel que fosse o medo da entrega, ele não pôde sustentar os seus argumentos por muito tempo. Afinal aquilo tudo era uma loucura. Celebraram-na despindo-se do seu passado e a ele voltando, mas sem as memórias pelo caminho. Tudo era novo. Do toque, magnetizado, das mãos ao toque, elétrico, dos lábios, tudo era uma novidade.
Sentado no canto da sala, observo o sussurro ao pé do ouvido. O sorriso vem como resposta às improbabilidades da vida. Quanto tempo vai durar? Quem sabe?! Talvez dure eternamente, e se alguém disser que não passa de amanhã, que seja. Aprendemos na vida que o eterno às vezes dura apenas um segundo.
