domingo, 15 de novembro de 2015

Aqueles olhos!



As últimas palavras que ela disse foram: tome cuidado! Eu jamais poderia imaginar que nunca mais iria ouvir a sua voz. Os seus olhos estavam marejados, eu sabia que escondiam alguma coisa, mas me mantive em silêncio. O dia tinha sido radiante não queria estraga-lo libertando aquelas lágrimas reclusas no canto do olho. Achei que era o melhor a fazer não meter o nariz, fingir que aquele odor putrefato não incomodava. Mas talvez significasse um pedido de socorro, aqueles olhos brilhantes na sombra... Talvez aquelas piscadas aceleradas e aquele sorriso trêmulo fossem um código, uma desesperada tentativa de desabafo, e eu não percebi, eu a deixei partir. Se tivesse me importado mais, se eu a tivesse posto no colo e tentasse desatar os nós em seu peito, talvez ela ainda permanecesse aqui no lugar do arrependimento. 
Ela saiu na garupa de uma moto com os cabelos a négligé, e eu fiquei assistindo enquanto ela desaparecia na rua escura. De alguma maneira eu sabia que aqueles tinham sido os últimos segundos com ela. Fiquei observando a poeira que subia com o vento – era visível sob a luz que descia de um poste próximo. Aquele vento era tão frio, mas as pessoas na rua não paravam nem tremiam, iam de um lado para o outro com um ar de cansaço no rosto. E eu ali esperando, pensando naqueles olhos sem cor cheios de mistérios e angustias. Ainda contemplei a rua em que a vi seguir, quem sabe na esperança de vê-la na penumbra, mas só o vento vinha bêbado trombando pelas paredes.
Quando o celular tocou mil ideias brotaram na minha cabeça, e eu sabia que tinha que ser forte. Um abafado alô seguiu-se de um silêncio revelador, as lágrimas desceram pelo meu rosto enquanto a voz do outro lado dizia em um pranto convulsionado: ela está doente, e não se sabe o que ira acontecer daqui pra frente... Às vezes me pergunto por que certas pessoas entram em nossas vidas, e porque outras têm que sair? O meu maior medo sempre foi esquecê-la, não reconhecer mais em minhas lembranças o seu rosto, não lembrar mais o timbre da sua voz... Eu estive totalmente absorto, e não ouvi as últimas palavras que meu interlocutor jorrava pelo telefone, só conseguia lembrar-me do olhar que ela me deferiu aquela noite, era uma despedida. 
A cada dia que passava chegava aos meus ouvidos novidades terríveis, e eu tinha que engoli-las a seco sem demostrar o desespero que me consumia. Tive que guardar no peito a sua dor para não expô-la aos abutres. Não me deixavam vê-la, era torturante viver na escuridão guiado por estranhos sem saber o que realmente acontecia. A cada hora que passava sozinho se apoderava de mim uma crise de pânico, meus pensamentos eram um emaranhado de medo e dor. Alguns dos poucos que compartilhavam a minha dor eram tomados por aforismos macabros, aumentavam o meu desespero com hipóteses sinistras sobre o que realmente deveria ter acontecido com ela. Eu já não estava mais ligado a este plano, eu simplesmente sobrevivia cercado por uma nevoa densa. Em um dia, que não lembro com exatidão as noticias cessaram e nada mais se soube a seu respeito, e eu simplesmente não poderia fazer nada... Ela desapareceu!
Hoje ainda lembro-me daqueles olhos, ainda lembro-me do seu rosto, da sua voz... Nunca mais tive noticias, mas ainda sinto que ela está por aí em algum lugar deixando o ar mais leve e os dias mais alegres. E eu sigo cultivando uma esperança: ainda vou vê-la outra vez! 

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