domingo, 6 de dezembro de 2015

Relatório do Cupido

“Assim que se olharam, amaram-se; assim que se amaram, suspiraram; assim que suspiraram, perguntaram-se um ao outro o motivo; assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio”.
William Shakespeare

Só bons amigos! Perdi a conta de quantas vezes essa frase se repetiu aos meus ouvidos. Na verdade era medo, medo de perderem-se um ao outro. Repetir aquela frase era uma tentativa de transforma-la em realidade para fugir de um sentimento novo e estranho que os invadia. Mas era uma luta perdida, aquele sentimento já tinha criado raízes nos seus corações. A cada sorriso que ela dava quando ele chegava, e a cada vez que ele repetia o nome dela com um brilho no olhar mais difícil ficava de esconder do outro o que cada um sentia.
Os olhares voltavam-se todos para eles na expectativa de que rompessem a barreira da insegurança, de que quebrassem as correntes do receio, da dúvida, de que realizassem o próximo movimento desse jogo. Era uma aposta alta e apenas duas cartas na mão, apenas dois caminhos a seguir, bastava uma escolha. Mas amar é um jogo com advertências e eles perderam-se em ponderações.
Cada dúvida, cada medo, cada palavra que soltavam era uma certeza. Certeza de que não podiam viver longe um do outro. Mas era loucura apostar nesse azarão – pensavam eles – os números eram contra qualquer possibilidade de vitória e corriam pelas línguas o gosto humano pela dor alheia. Sim era loucura! Era uma ideia descabida, um ato perigoso, um caminho sem volta... Mas o que importava isso? Já dizia o poeta que “tudo vale apena, se a alma não é pequena”.
  Grande, era o desejo que lhes consumia desde as pontas dos cabelos até o dedo mindinho do pé. Por mais forte e cruel que fosse o medo da entrega, ele não pôde sustentar os seus argumentos por muito tempo. Afinal aquilo tudo era uma loucura. Celebraram-na despindo-se do seu passado e a ele voltando, mas sem as memórias pelo caminho. Tudo era novo. Do toque, magnetizado, das mãos ao toque, elétrico, dos lábios, tudo era uma novidade.
Sentado no canto da sala, observo o sussurro ao pé do ouvido. O sorriso vem como resposta às improbabilidades da vida. Quanto tempo vai durar? Quem sabe?! Talvez dure eternamente, e se alguém disser que não passa de amanhã, que seja. Aprendemos na vida que o eterno às vezes dura apenas um segundo.

domingo, 15 de novembro de 2015

Aqueles olhos!



As últimas palavras que ela disse foram: tome cuidado! Eu jamais poderia imaginar que nunca mais iria ouvir a sua voz. Os seus olhos estavam marejados, eu sabia que escondiam alguma coisa, mas me mantive em silêncio. O dia tinha sido radiante não queria estraga-lo libertando aquelas lágrimas reclusas no canto do olho. Achei que era o melhor a fazer não meter o nariz, fingir que aquele odor putrefato não incomodava. Mas talvez significasse um pedido de socorro, aqueles olhos brilhantes na sombra... Talvez aquelas piscadas aceleradas e aquele sorriso trêmulo fossem um código, uma desesperada tentativa de desabafo, e eu não percebi, eu a deixei partir. Se tivesse me importado mais, se eu a tivesse posto no colo e tentasse desatar os nós em seu peito, talvez ela ainda permanecesse aqui no lugar do arrependimento. 
Ela saiu na garupa de uma moto com os cabelos a négligé, e eu fiquei assistindo enquanto ela desaparecia na rua escura. De alguma maneira eu sabia que aqueles tinham sido os últimos segundos com ela. Fiquei observando a poeira que subia com o vento – era visível sob a luz que descia de um poste próximo. Aquele vento era tão frio, mas as pessoas na rua não paravam nem tremiam, iam de um lado para o outro com um ar de cansaço no rosto. E eu ali esperando, pensando naqueles olhos sem cor cheios de mistérios e angustias. Ainda contemplei a rua em que a vi seguir, quem sabe na esperança de vê-la na penumbra, mas só o vento vinha bêbado trombando pelas paredes.
Quando o celular tocou mil ideias brotaram na minha cabeça, e eu sabia que tinha que ser forte. Um abafado alô seguiu-se de um silêncio revelador, as lágrimas desceram pelo meu rosto enquanto a voz do outro lado dizia em um pranto convulsionado: ela está doente, e não se sabe o que ira acontecer daqui pra frente... Às vezes me pergunto por que certas pessoas entram em nossas vidas, e porque outras têm que sair? O meu maior medo sempre foi esquecê-la, não reconhecer mais em minhas lembranças o seu rosto, não lembrar mais o timbre da sua voz... Eu estive totalmente absorto, e não ouvi as últimas palavras que meu interlocutor jorrava pelo telefone, só conseguia lembrar-me do olhar que ela me deferiu aquela noite, era uma despedida. 
A cada dia que passava chegava aos meus ouvidos novidades terríveis, e eu tinha que engoli-las a seco sem demostrar o desespero que me consumia. Tive que guardar no peito a sua dor para não expô-la aos abutres. Não me deixavam vê-la, era torturante viver na escuridão guiado por estranhos sem saber o que realmente acontecia. A cada hora que passava sozinho se apoderava de mim uma crise de pânico, meus pensamentos eram um emaranhado de medo e dor. Alguns dos poucos que compartilhavam a minha dor eram tomados por aforismos macabros, aumentavam o meu desespero com hipóteses sinistras sobre o que realmente deveria ter acontecido com ela. Eu já não estava mais ligado a este plano, eu simplesmente sobrevivia cercado por uma nevoa densa. Em um dia, que não lembro com exatidão as noticias cessaram e nada mais se soube a seu respeito, e eu simplesmente não poderia fazer nada... Ela desapareceu!
Hoje ainda lembro-me daqueles olhos, ainda lembro-me do seu rosto, da sua voz... Nunca mais tive noticias, mas ainda sinto que ela está por aí em algum lugar deixando o ar mais leve e os dias mais alegres. E eu sigo cultivando uma esperança: ainda vou vê-la outra vez! 

sábado, 20 de junho de 2015

AMOR

Amor, grande sinfonia
Melodia suave, doce melodia.
Orquestra que os corações amolece,
Ritmo que, ao mesmo tempo nos encanta e nos enlouquece.



Ronilson Xavier Cardoso

sexta-feira, 12 de junho de 2015

NÃO QUERO AMAR


Que por amor, te quero perto.
Que por amor, me afasto.
Que por amor, me tenho gasto.
Que por amor, estou incerto.

Que por amor, suspiro.
Que por amor,  blasfemo.
Que por amor, martírio peno,
Que por amor, mal respiro.

Que por amor, insano ando.
Que por amor, choro e sorrio.
Que por amor, o rosto sombrio
Deliro só sob seu manto.


 Ronilson Xavier Cardoso